Um só rosto

Luísa Jacinto

(Imagem: Luisa Jacinto)

 

Quando penso no tempo
Que passou como tinha de passar
Nem depressa nem devagar
Cheio de folhas a cair
E sementes a brotar
Toca dentro de mim
Uma campainha

Como se no meio
Do centro comercial
Das minhas memórias
Cheio de luzes e confusão
Como se por dentro
De todos os encontros
De todos os desencontros
Houvesse
Uma só memória
Um só rosto

E que ideia a minha
A tentar camuflar-te
Delicadamente, é certo
Como se a distância
Que se procura acumular
Não fosse sempre por fim
Uma distância de si

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Até seres música

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Eu comecei a criar-te
Porque quis
Não te deste conta e não dás
A não ser quando cai um trovão
Ou quando é mais evidente para ti
A beleza

Eu continuei a criar-te
Com atenção com cuidado
Procurei em cada detalhe
Tornar-te belo
Profundo e simples

Tu começaste a agitar-te
Procurando soltar-te
Das minhas mãos amigas
Mas eu continuei a criar-te
Corrigindo nos erros
Dando vida nas mortes
Até seres música

Disse o meu nome

Zaqueu

Eu nunca soube bem
Porque saí de casa
Naquele dia
Não pensei que fosse p`ra mim
A visita e por isso fui ver

Como todos os outros
Infiel e traidor
Como todos os outros
Mesquinho e egoísta
Como todos os outros
Cusco e vazio
Como todos os outros
Fui ver

Subi à árvore
Como todos contam
Ele passou
Disse o meu nome
Eu, infiel e traidor
Disse o meu nome
Eu, mesquinho e egoísta
Disse o meu nome
E semeou em mim
Um olhar
Que não voltei a perder

Esta é a geração

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Esta é a geração dos engraçados
Esta é a geração dos bonitos
Esta é a geração dos que se vêem
Dos que podem, dos que dançam

Esta é a geração
Dos que esconderam o coração
Debaixo duma manta forrada
De afectos

Esta é a geração
Dos que viajam pelo mundo
Dos que se fecham na emoção
Pra não sair do seu quadrado

Esta é a geração dos profundos
Esta é a geração dos assustados
Esta é a geração
Dos que procuram o Senhor

Job

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Confiai-lhe todas as vossas preocupações
Porque Ele tem cuidado de vós

Job pediu explicações
Mas a explicação é um atalho
Infindável e traidor
Lutou o bom combate
Esquecendo as vozes
Da sabedoria de bolso
Que oferece respostas
Mas não convence

Job foi tentado na confiança
E a confiança o salvou da tentação

Para o meu bem

Para o meu bem

Aquele forno não voltou a fazer pão
E a casa debaixo deixou de ter
O cheiro e os vestígios
Da tua presença
Parece que a vida desde então
Perdeu aquele bálsamo da tua voz
A perdoar-me sempre
E desapareceu
Aquele lugar da tua pessoa
Onde as leis são novas e antigas
Aquele lugar
Onde tudo está orientado
Para o meu bem