Eu ando na rua

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Desço degrau a degrau
A longa escada
E reparo
Que os meus passos são seguros
E há uma energia um saltitar
Que vem de dentro
Que não cabe dentro
Eu ando nas ruas e olho as coisas
Procurando nas telas os rabiscos
Da sua assinatura
Eu ando na rua
Como quem entra nas matas
E não está preso
E não é medo
Eu ando na rua a cantarolar
Como quem sabe
Que há um braço forte
Suspenso
Que o perdura

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Não esqueças

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Esquece o teu braço já dorido
de tanto trabalho e dias inteiros
a levantar cidades carregadas de
corações intenções aspirações negadas
Esquece o brilho do teu falar
inteligente e harmonioso vencedor
de prémios gordos e saborosos
frescos e suculentos ao trincar
Esquece as marés a favor
ou os dias de tempestade
a tua pele molhada esquecida
debaixo do barulho das ruas cheias de glean

E não esqueças não esqueças só
As obras do Teu Senhor

 

 

Bom ano

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Qualquer viagem que comece
Traz consigo a morte necessária
Para que bata à porta a vida nova
Que o tempo grita sem cessar

E arrancar é sempre segurar-se
A quem nos leva a quem nos guia
Como quando lemos já sem pensar:
Fasten seat belt while seated

Como poderei abandonar-te

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Larga duma vez por todas essa ideia
Vai buscá-la onde se esconde
Agarra-a pelo colarinho e diz-lhe na cara:
Tu não existes

Volta sempre a matar o enredo
Entra só nos meus olhos grandes
Que garantem e defendem dos medos
Que vais deixando ferver em ti

Corre pelos campos e caminha pelas rias
Como quem sabe que tem morada segura
Como quem sabe que eu vim

Um só rosto

Luísa Jacinto

(Imagem: Luisa Jacinto)

 

Quando penso no tempo
Que passou como tinha de passar
Nem depressa nem devagar
Cheio de folhas a cair
E sementes a brotar
Toca dentro de mim
Uma campainha

Como se no meio
Do centro comercial
Das minhas memórias
Cheio de luzes e confusão
Como se por dentro
De todos os encontros
De todos os desencontros
Houvesse
Uma só memória
Um só rosto

E que ideia a minha
A tentar camuflar-te
Delicadamente, é certo
Como se a distância
Que se procura acumular
Não fosse sempre por fim
Uma distância de si

Até seres música

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Eu comecei a criar-te
Porque quis
Não te deste conta e não dás
A não ser quando cai um trovão
Ou quando é mais evidente para ti
A beleza

Eu continuei a criar-te
Com atenção com cuidado
Procurei em cada detalhe
Tornar-te belo
Profundo e simples

Tu começaste a agitar-te
Procurando soltar-te
Das minhas mãos amigas
Mas eu continuei a criar-te
Corrigindo nos erros
Dando vida nas mortes
Até seres música

Disse o meu nome

Zaqueu

Eu nunca soube bem
Porque saí de casa
Naquele dia
Não pensei que fosse p`ra mim
A visita e por isso fui ver

Como todos os outros
Infiel e traidor
Como todos os outros
Mesquinho e egoísta
Como todos os outros
Cusco e vazio
Como todos os outros
Fui ver

Subi à árvore
Como todos contam
Ele passou
Disse o meu nome
Eu, infiel e traidor
Disse o meu nome
Eu, mesquinho e egoísta
Disse o meu nome
E semeou em mim
Um olhar
Que não voltei a perder